
Gatucha, conheci-te há já alguns anos quando iniciei uma relação amorosa com a tua dona. Nunca tive animais em casa, nunca privei de perto com eles, nunca partilhei o meu espaço com qualquer ser de 4 patas, nunca senti o olhar terno de um gato ou de um cão até te ter conhecido. Na altura em que me foste apresentada a tua dona disse-me qualquer coisa como isto: há mais uma fêmea lá em casa, a Boogie, uma cadela que eu achei logo meiguinha, meiguinha, meiguinha e de uma cumplicidade sem limites.
Lembro-me de ter olhado para ti e para a tua companheira e sentir que acabara de conquistar duas novas amiguinhas. A tua dona quis-me logo encarregar de, quando estava em casa dela, ter de ir passear a Boogie à noite. Às vezes quando a tua comadre se preparava para as “noitadas” dela, tu ias para o pé da porta, olhavas talvez para a fechadura como que a compreender que ali estava a “chave” da saída. Não saías porque os gatos não se passeiam na rua, nem têm necessidade de fazer as suas necessidades fora de casa. Mas era engraçado quando regressávamos ver-te a correr atrás da Boogie, demonstrando sem dúvida uma enorme satisfação e alegria pelo regresso da tua cadelinha de estimação. Quando ela morreu, ias muitas vezes ao quarto da tua dona e eu via que tu olhavas em redor como que à procura da tua simpática cadelinha. A seguir ias-te embora, triste de certeza porque nunca a vias. Mais tarde, acredito que tenhas compreendido a perda, uma vez que deixaste de a ir procurar.
Hoje em dia, já é comum saber-se que os animais têm sentimentos. Há imagens nestas coisas das redes sociais com alguns animais que se entregam até a outros de raças diferentes ou que perfilham animais dando-lhes o carinho e a ternura que lhes faltaram dos seus progenitores. Quando vejo essas imagens não fico admirado, porque me vem à memória o que vi (foi a tua dona que me mostrou num filme) quando tu e a Boogie, ainda pequeninas, andavam a correr atrás uma da outra num sítio que desconheço, mais parecendo que alguém (humano) jogava com duas bolinhas de peluche.
Sempre fui traquinas e gostei de fazer muitas macaquices tanto com crianças como contigo e a com a Boogie. Ao início da nossa amizade, provocava-te com as mãos para que tu ficasses assanhada. Tu reagias logo, a tua dona dizia que tu bufavas (não sei se o termo é mesmo esse), mas acho que não gostavas mesmo nada das minhas patifarias. Mas nunca vi crueldade no teu olhar. Mais tarde, deixaste de reagir, não porque tivesses ficado doente, mas sim (muito provavelmente) porque começaste a pensar que não valia mesmo a pena contrariar os malucos, como eu.
Tinhas uma agilidade única. Muitas vezes vi-te saltar para espaços que eu diria impossíveis de alcançar. Mas tu fazias isso com “uma perna às costas”. Até parecia
que depois olhavas para nós e dizias na tua linguagem de miau, “não custou nada”. Para ti, fazer esse ou outro exercício físico era o normal em cada dia. Uma vez, em Santa Cruz, local que tu adoravas porque a tua dona te deixava estar esticadinha (salvo seja) ao sol, entraste numa velocidade estonteante em casa, só porque atrás de ti vinha um cãozinho pequenito a correr e tu deves ter tido medo. Acho que nesse dia bateste o record mundial dos 10 mts planos para gatos. Só paraste quando te sentiste segura debaixo da cama do quarto da tua dona. Eu nunca tinha visto um gato em velocidade pura.
Já te disse que até vos ter conhecido, não tinha tido qualquer envolvência com animais. Mas tu, amiguita, marcaste-me pelo olhar, pela meiguice, pela ternura, pela companhia, pela proximidade. “Obrigaste-me” a gostar de felinos mais ou menos do teu tamanho.
Foste amada e acarinhada pela tua dona, sempre, a toda a hora, mas também em troca deste tudo a quem estava ao pé de ti. Depois das duas doenças graves que tiveste, tenho para mim que a tua dona ainda se afeiçoou mais a ti. Nunca te faltou com nada. Tudo a horas, até saquinhos de água quente para não teres frio. Eras a sua gatinha, a bichana que a acompanhava a ver televisão sentada ao colo ou à frente do radiador nas noites frias de inverno. A tua dona teve sempre um enorme respeito pela tua vida, porque tal e qual acontece em nós, nos humanos, a vida é algo que não nos pertence.
Acho que tu olhavas para a tua dona como sendo a tua mãe. Vieste para ela com mais ou menos 1 mesito de vida. E ela tratou de ti, como sempre tratou os filhotes dela, com desvelo, com paixão, com amor. Eu acho contudo que vocês eram irmãs, porque foram cúmplices de muitas coisas, porque respiravam o mesmo ar, porque bebiam a mesma água, porque dormiam muitas vezes juntas, porque sofriam por quem gostavam, porque amavam o sol.
No dia 31 de Dezembro de 2015, vê lá tu bem, mais ou menos às 22.45, deixaste de ter força para aguentar as tuas maleitas. E partiste para “não sei onde”. Morreste. Ao colo da tua dona. Ela apercebeu-se de tudo. Esteve contigo nos teus últimos momentos de vida. Fez-te festinhas. E sentiu-se impotente pelo caminho da vida, o seu fim. Chorou lágrimas sentidas. Levámos-te às urgências, ao teu “veterinário de família”. Para nada, uma médica simpática limitou-se a constatar o que já sabíamos. O veterinário principal, o Mestre, disse à tua dona, depois dos graves problemas de saúde, que tu eras uma sobrevivente. Lutaste até ao limite. Foi pena que não tivesses dobrado o ano, mas deves ter morrido serena, aconchegadinha nos braços de quem te amou profundamente. A tua dona tinha-me dito poucas horas antes que achava que tu estavas a morrer. Eu nem queria acreditar. Mas era verdade, ela sentia que a tua vida estava a terminar. E isso só está ao alcance de quem ama.
Partiste. Eu deixei de ter (por empréstimo) uma gatinha amorosa e inteligente. Depois de te ter conhecido, e à Boogie, é impossível não gostar de animais. Obrigado por todos os momentos bons.